sexta-feira, 13 de abril de 2012

A descoberta


Era um final de tarde de segunda-feira, no frio mês de fevereiro de 2011.

Eles  voltaram do trabalho, entraram em casa.

O gato já os esperava com seu miado mudo. Ele sorri por dentro quando os ve, mas a sua cara está sempre séria. Ela sabe que ele está feliz pois dá aquela piscadinha lenta com seus olhos verdes, de gato.  A imagem que ele tem de seu dono, ou matfar (pai da comida) é a de um abridor de lata gigante e ambulante.  Já sua matmor (mãe da comida), está sempre ocupada com alguma coisa ou atrasada na agenda da janta do gato, que se faz de desentendido pra ganhar duas jantas, enganando facilmente sua matmor

Nesse dia, já havia mais de 5 em que a matmor estava atrasada em seu ciclo feminino. No mesmo final de semana ela havia esquiado e se divertido com os amigos, além de compartilhar da notícia da gravidez de mais uma amiga, entre tantas outras. E mais uma vez aquela pontinha de inveja branca tinha surgido no seu sorriso sem graca, ao dizer os parabéns. Era um sentimento horrível. Estar feliz pelas amigas, mas ao mesmo tempo ter raiva do mundo, dos números, das estatísticas, das probabilidades e das outras grávidas. Afinal a mais de 2 anos ela, matmor, aguardava por receber os parabéns das amigas, era sua vez, ela merecia, após tudo que passou e fez. 

E nesses dois anos a matmor foi se irritando com as constantes cobrancas, principalmente da família e daqueles amigos dos quais ela só conversava uma vez por ano onde  e as perguntas das conversas eram sempre as mesmas: “Tá frio aí ?” (mesmo que a conversa fosse no meio do mês de julho), “E aí quando chega o herdeiro ? “. Afinal de contas, quando se está solteiro, te cobram um namorado. Quando se namora, um marido. Mal chegou da lua-de-mel, perguntam sobre o filho. As visitas chegam para conhecer o primogênito e antes mesmo de olhar para o mesmo, perguntam quando vem o irmão. 

O desejo de ter um filho superava o fato da gravidez. Não precisaria carregar e gerar por 9 meses. Não precisaria vê-lo engatinhar.  Não precisaria ter a cor dos cabelos da matmor ou o sorriso doce do matfar. Poderia ser grande. Poderia ser de outro país. Podeira já estar falando outra língua. Pois de uma forma ou de outra seria seu filho.
Enquanto matfar enchia o balde com a janta dos cachorros, sim , o gato da casa era chefe de um bando de cachorros, matmor resolveu acabar com a espera e fazer um teste de gravidez. Desses mais baratos que existem. Já achava que não valia mais a pena gastar dinheiro com essas modernidades digitais. 

Não precisava nem ser com a urina da manhã, aquela com que a matmor aguardava em claro, durante a noite, e com sede pra não diluir nada. Não precisava ler a bula do exame 3 vezes, tanto em inglês, quanto norueguês, para realizar o exame sem erro.  Muito menos cronometrar e andar com o relógio na mão, para que ao final dos famigerados minutos ela lesse o resultado 5 vezes. Primeiro com a iluminacão do banheiro e depois sob um holofote, afinal a luz do banheiro era fraca e de repente estivesse lendo algo errado.Ainda não satisfeita ela corria para internet para ler mais uma vez aquele texto sobre falso negativo. Pra mais tarde pegar o teste de dentro do lixo e conferir de novo, just in case. 

Ela foi ao banheiro. Mas não estava nervosa. Já era a milésima vez que fazia isso. Desencargo de consciência apenas. Nada mais.
Lavou as mãos. Após todos esses anos, matmor ainda não maestrava a arte de “mijar no palito” sem molhar as mãos. 

Ao pegar o teste e suas mãos ela só deu uma piscadela rápida. Pra conferir o que seus olhos e coracão já sabiam. Um tracinho na horizontal e só.
Mas para sua surpresa, dessa vez, tinha uma cruz .Rosa. Bem forte. Ela sorriu. Não tremeu. Não gritou. Não chorou. 

Calmamente foi até a cozinha ao encontro do matfar. E enquanto segurava o teste em sua mão ,deu a notícia: “ We have a winner”. Matfar, continuou a mexer o balde com a sopa  dos cachorros. A novidade foi sendo processada enquanto ele dissolvia a carne na água morna. 

Ele se levantou.

Com uma lágrima na ponta dos olhos, ele abracou fortemente a matmor

E naquele abraco, os dois eram três.